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HISTÓRIA:

PONTE PARA A LIBERDADE

“Achou-se necessário fazer com que a sociedade não tivesse conhecimento da história maravilhosa que foi a contribuição dos africanos para a construção desse país. E, com o passar do tempo, isso foi cada vez mais ocultado a ponto da gente falar que somos descendentes de escravos. Na realidade nós não somos descendentes de escravos, somos descendentes de africanos que chegaram aqui na condição de escravos. Ser escravo é uma categoria, não é um povo” - Januário Garcia)

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m cabelo afro cheio, grande, alto e macio nas mãos de uma mulher negra. Senta no chão, concentra o olhar. As mãos separam três mechas de cabelo. Finas, grossas, tanto faz. A mecha da direita mergulha em ...

direção à cabeça, tomando o lugar que antes pertencia ao feixe do meio. Pedaço dali, ponta daqui. Agora é a vez da mecha da esquerda desaparecer rumo ao algodão negro, emergindo do lado oposto, bem próxima à mão direita. Tecer com os dedos, costurar com a delicadeza de um fio de cabelo. É o trançar propagado ao longo da História de cabeça em cabeça, de mão em mão, de voz em voz; dentro de navios, de um continente ao outro.

 

Em solo africano, a prática de trançar é uma das várias maneiras adotadas para estilizar os cabelos de cada membro de uma tribo. Torção, trança, tecelagem de fios de algodão ou lã, adição de gordura animal, ocre, lama e argila: são muitas as histórias por trás dos penteados elaborados que marcam a identidade das diferentes nações que povoam boa parte do continente mais antigo do mundo. É assim, como berço de mistérios e múltiplas histórias que a África preenche a imaginação de tantos negros em diáspora. Expressões culturais são recriadas, o corpo é resgatado como símbolo de uma identidade reprimida e a resistência assume novas formas.

Falar de trança é falar da minha ancestralidade. É falar essência da mulher negra. É falar da minha avó, da minha mãe, da minha família, da minha essência. Quando eu vou trançar uma pessoa eu tenho certeza que os meus ancestrais estão presentes ali, naquele momento, me dando força e sabedoria”

ANDREIA CARDOSO, TRANCISTA

Uma história milenar

As tranças presentes nos cabelos de tantas mulheres e homens negros ao redor do mundo nos dias de hoje não são tão diferentes dos penteados milenares que faziam a cabeça das populações da África Negra no passado. Os desenhos elaborados e trançados guardam histórias únicas de cada clã africano e misturam arte, comunicação, espiritualidade e praticidade em cada mecha entrelaçada.

 

No Vale do Nilo, há mais de três mil anos, as tranças eram incrementadas por diversos tipos de refinamentos (como fios de ouro) e, além de enfeitarem o visual, demarcavam posições sociais. Em determinada época histórica do Antigo Egito, escribas e artesãos tinham jeitos diferentes de usar tranças devido à sua posição social. Até mesmo algumas representações encontradas por arqueólogos indicam que alguns faraós trançavam os fios da barba ou aderiam a perucas com tranças criadas especialmente para a realeza.

 

Em outra parte do continente, onde hoje fica a Nigéria, estátuas de terracota com mais de dois mil anos mostram que os jovens da civilização Nok faziam penteados cuidadosos ornados por penas, cachos e tranças laterais. À oeste, na atual Gâmbia e no Senegal, os homens da tribo Wolof utilizam cabelos trançados como tática de guerra. Mais ao sul, no território em que agora localiza-se a Angola e o Congo, os Lunda Tshowe mantém viva a tradição de usar uma máscara de fibras naturais trançadas e pintadas com barro nos cultos de evocação aos ancestrais. E são as mulheres adultas da cultura Himba, ao sul da Angola, que aderem a várias tranças cobertas de otjize (um tipo de ocre tradicional da região) para compor uma de suas características mais marcantes: os cabelos avermelhados.

 

Entre as diversas tribos da África que utilizam tranças, talvez a mais conhecida seja a população Mbalantu, que vive na Namíbia. As mulheres do clã, conhecidas entre alguns pesquisadores do Ocidente como “Rapunzeis da África”, têm como uma de suas mais notáveis tradições as enormes tranças Eembuvi, que são cultivadas desde a infância. O penteado, feito com ceras naturais e gorduras vegetais, é finalizado com extratos da casca de uma árvore chamada Omutyuula – segundo estudiosos, estaria nessa planta o segredo para o grande crescimento dos cabelos trançados das Mbalantu.

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Tranças feitas por Roberta Souza em Bruna Oliveira - Foto: Gabriela Isaias

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Detalhe da trança nagô feita com duas cores do material jumbo: preta e roxa - Foto: Gabriela Isaias

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Foi Roberta Souza, a trancista, quem sugeriu o modelo nagô, feito com tranças rasteiras de grossura média no couro cabeludo - Foto: Gabriela Isaias

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Enquanto é trançada por Roberta, Bruna posa para a foto - Foto: Gabriela Isaias

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Roberta prefere trançar devagar, para que o penteado não doa. Ela conta que é comum as clientes relaxarem a ponto de sentirem sono - Foto: Gabriela Isaias

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A trancista estabelece as divisões da raiz do cabelo com a ajuda do cabo de um pente fino - Foto: Gabriela Isaias

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Roberta costuma usar um pouco de gel ou pomada enquanto trança. O método é uma das formas de selar os fios desalinhados - Foto: Gabriela Isaias

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Tímida, a trancista desvia o olhar e sorri quando percebe que está sendo fotografada - Foto: Gabriela Isaias

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Roberta separa as mechas de cabelo que serão usadas no penteado - Foto: Gabriela Isaias

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Bruna, a cliente, conta que adora variar o visual, adotando hora seu cabelo natural "black power", hora alguns estilos de trança - Foto: Gabriela Isaias

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Roberta utiliza a tesoura para ajustar os fios arrepiados no comprimento da trança - Foto: Gabriela Isaias

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"Normalmente as meninas pedem mais a trança rasta [trança solta], que ajuda o cabelo a ficar bastante tempo sem química", diz Roberta - Foto: Gabriela Isaias

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Clientes costumam segurar os feixes de cabelo separados pelas trancistas entre os dedos das mãos para que as mechas não se misturem - Foto: Gabriela Isaias

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Moradora da Cruzada de São Sebastião, no Leblon, a trancista explica que aprendeu a trançar mexendo no cabelo de sua irmã - Foto: Gabriela Isaias

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Desde que começou a trançar, há quase 10 anos, Roberta conta que esse é o momento em que seu trabalho tem a maior clientela - Foto: Gabriela Isaias

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Segundo Jamile Bento, apesar da trança "escama-de-peixe" não ser um penteado africano, é popular entre suas clientes de cabelos lisos - Foto: Gabriela Isaias

Sem o filtro ocidental

Há quem diga que a alma anima o corpo. No entanto, e se resolvêssemos imaginar por um instante que é o corpo que anima a alma e a ajuda a se adaptar à vida, analisando e traduzindo tudo o que ela tem a dizer? Para entender com mais clareza os efeitos e significados das tranças em algumas tribos africanas, é necessário interrogar o próprio olhar e despir-se de filtros estéticos estabelecidos pelo pensamento ocidental. Afinal, a linha de pensamento na qual apoiam-se tantas artes, práticas e tradições ancestrais dos povos da África negra desafia a lógica europeia: nela corpo e alma mesclam-se como um só instrumento poderoso e sagrado.

 

Conchas, jóias, miçangas e fibras naturais podem ser acrescentadas em determinados penteados a depender da mensagem que se quer comunicar. Estado civil, hierarquia social, condições financeiras, rituais religiosos, preparações de guerra e até mesmo a passagem de diferentes eventos da vida (como casamento ou morte), são sinalizados através dos cabelos, segundo afirma Raul Lody em seus diversos livros sobre a cultura negra. Antropólogo, escritor e pesquisador de religiões afro-brasileiras, Lody explica que no pensamento africano “há um diálogo estético permanente entre o objeto – escultura, máscara, instrumento musical – e o corpo da pessoa”, o que faz de cada indivíduo um espaço a ser explorado pela arte.

 

Percebido como uma herança tanto dos ancestrais quanto dos deuses, o corpo é, para os africanos, parte de uma força divina que não deve ser suprimida em prol do Sagrado; a corporalidade faz parte Dele. A cabeça, o orí, é, portanto, o centro de controle de todo o corpo, cabendo ao cabelo a comunicação com os deuses e espíritos. No livro “Cabeças de Axé: identidade e resistência” (2004), Lody afirma que “a cabeça ostenta, sintetiza, comunica, revela o mundo”. O antropólogo ressalta ainda que a arte dos objetos, quando unida à arte do corpo, torna-se uma forma de expressão única pois alia utilidade e estética.

 

Vale ressaltar que, além dos profundos significados e mensagens transmitidos por cada penteado, há teorias sobre a funcionalidade das tranças. Alguns pesquisadores acreditam que os fios trançados são uma forma encontrada pelos povos africanos para conservar a umidade da cabeça em meio a um clima extremamente árido. Outros apostam que elas são feitas para manter os cabelos longe do fogo durante as danças típicas realizadas ao redor de fogueiras em várias cerimônias religiosas. Mas também há os intelectuais que afirmam existir, de fato, uma arte de trançar na África que não necessita de utilidade específica: é puramente estética. Porém, a arte das tribos negras tem como raiz uma concepção de existência bastante diferente do mundo ao qual esses teóricos estão inseridos: por lá não há reféns do ponto de vista ocidental.

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Existe uma história do negro sem o Brasil. O que não existe é uma história do Brasil sem o negro”

JANUÁRIO GARCIA, FOTÓGRAFO

Jamile Bento posa em frente ao seu estande, montado em uma das ruas de Rio das Pedras - Foto: Gabriela Isaias

Filhos de outro sol

Não é preciso olhar para um passado muito distante: há cerca de quatro ou cinco gerações ainda havia escravos no Brasil. Foram cerca de 5,5 milhões de pessoas obrigadas a cruzar o Atlântico derramando sangue no mar. Muitas delas acabaram deixando nesse caminho tortuoso seus últimos sopros de vida. Filhos de outros sóis e de outras nações com destino aos campos de concentração, aos grandes leilões, às correntes e à formação de um país erguido sob o sangue negro.

 

O grande tráfico de escravos foi simultâneo à colonização do Brasil: iniciou-se aproximadamente 30 anos após a chegada das primeiras caravelas em solo tupiniquim. A população brasileira formou-se a partir da chegada de negros nativos de vários países da África, como Angola, Congo, Costa da Mina, Benim e Nigéria. Foi assim que os africanos escravizados passaram dominar sua nova terra em número de habitantes e, vítimas de numerosas violências sexuais, acabaram por direcionar o Brasil para uma de suas mais marcantes peculiaridades até os dias de hoje: a mestiçagem.

 

A brutalidade direcionada ao negro não se resumiu aos trabalhos forçados, constantes estupros, torturas e assassinatos: os castigos iam além dos troncos, açoites e máscaras de ferro. Muitas senhoras, com ciúmes da beleza das negras que trabalhavam na casa-grande, ordenavam raspar a cabeça dessas mulheres pensando que assim afastariam os olhos de seus maridos sobre elas.

 

O ritual de preparação do escravo para os leilões públicos também demonstrava o tratamento brutal recebido pelos africanos: incluía lustrar os dentes, aplicar óleos para esconder as doenças do corpo e depilar a cabeça. A raspagem dos cabelos, sobretudo, era uma prática que, sob o pretexto da higienização, criava uma desestabilidade cultural, moral e psíquica, uma vez que o cabelo, para muitas etnias africanas, era uma marca de dignidade e identificava os habitantes de cada tribo. Raspar os fios de um negro escravizado correspondia a uma mutilação de raízes daqueles que tinham no corpo uma de suas principais formas de comunicação.

 

Januário Garcia, 74, fotógrafo e militante do Movimento Negro Brasileiro nos anos 1970, afirma que o objetivo era desumanizar o africano para fazer com que ele não tivesse referências de sua própria história, das suas origens. “O africano quando chegava aqui não era tratado como ser humano, era tratado como uma peça. E uma peça tinha quatro metros e 78 centímetros. Ou seja: pra uma peça de escravo eram necessários tantos escravos que juntos somassem quatro metros e 78 centímetros”, conta. Ele afirma ainda que a contribuição dos negros para a construção do Brasil foi ocultada a ponto dos afro-brasileiros identificarem-se como herdeiros de escravos. “Na realidade nós não somos descendentes de escravos, nós somos descendentes de africanos que chegaram aqui na condição de escravos. Ser escravo é uma categoria, não é um povo”, explica Januário.

A cultura africana é muito antiga. A África deu contribuições importantes para a nossa civilização: ela estabilizou o mundo pra humanidade. [...] Existe uma história muito grande que não é contada, que não é narrada. E nós fomos procurar essa história pra resgatar o que é nosso e desenvolver a nossa autoestima”

JANUÁRIO GARCIA, FOTÓGRAFO

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Katia Medeiros mostra alguns dos materiais que utiliza para trançar: jumbo, kanekalon, lã, linha e até sisal - Foto: Gabriela Isaias

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Antes cabeleireira, Katia aprendeu a trançar com uma conhecida angolana e desde então se encantou pelo mundo das tranças - Foto: Gabriela Isaias

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Katia Medeiros posa em frente a um de seus estandes, em um centro comercial no bairro de Madureira - Foto: Gabriela Isaias

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A trancista Gabriela Azevedo em momento de descanso; à direita, a maquiadora Bruna Teodora arruma as tranças de Suelen Gomes - Fotos: Gabriela Isaias

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Suelen posa com seu penteado no Instituto Black Bom, no Centro do Rio - Foto: Gabriela Isaias

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O fotógrafo Januário Garcia, durante entrevista em sua casa, no bairro de São Cristóvão, no Rio de Janeiro - Foto: Gabriela Isaias

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Adereços em tecido utilizados para ornamentar penteados africanos - Foto: Gabriela Isaias

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Halline Santos faz a manutenção de suas tranças. O método costuma ser feito após dois ou três meses de uso do penteado - Foto: Gabriela Isaias

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Com cuidado, Cíntia Ébano retira os fios desalinhados durante a manutenção das tranças de Halline - Foto: Gabriela Isaias

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À esquerda, Gabriela Azevedo trança a atriz Zezé Mota; à direita, a estudante Halline Santos mostra seu penteado - Fotos: Gabriela Isaias

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A atriz Zezé Mota conversa com sua filha, a trancista Cíntia Ébano, no Instituto Black Bom - Foto: Gabriela Isaias

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Detalhe das tranças nagô laterais de Zezé Mota. O penteado foi feito pela trancista Gabriela Azevedo - Foto: Gabriela Isaias

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Gabriela posa para foto após entrevista no Instituto Black Bom - Foto: Gabriela Isaias

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A atriz Bianca Lima tem os cabelos trançados no estilo moicano, no Instituto Black Bom - Foto: Gabriela Isaias

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Entre os acabamentos mais comuns feitos pelas trancistas, destaca-se a "ponta fina" - Foto: Gabriela Isaias

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A organização das mechas utilizadas no método "crochet braid", que consiste em costurar feixes de cabelo em uma trança nagô - Foto: Gabriela Isaias

A trança é uma forma de resgate das nossas ancestralidades mesmo que a gente não tenha conhecimento de qual nação a gente descende. Aliás, tudo que a gente faz como uma forma de retorno pra África é importante e causa um movimento ao nosso redor, já que as pessoas, antes mesmo de falarem contigo, já fazem uma leitura de como você é e no que você acredita”

PRISCILLA SILVA, BANCÁRIA

Sopro de esperança

Desde o começo da escravidão no Brasil, os senhores de escravos estimulavam as rivalidades étnicas que existiam entre as tribos africanas, separavam membros de famílias e evitavam reunir um grande número de negros de uma mesma origem a fim de enfraquecer qualquer chance de resistência. É desse modo que várias nações ricas e plurais, como Anagó, Oyó, Ijexá, Ketu e Ifé, foram reduzidas aos termos genéricos “iorubá”, “nagô”, “sudanês”, “banto” – agrupando membros de tribos historicamente rivais em um só grupo.

 

Em terras desconhecidas, à sombra de um regime erguido sobre o racismo, africanos foram vistos com desprezo e sentenciados à alienação de suas próprias culturas. Era isso que os escravagistas tinham em mente. Poucos deles podiam imaginar que aquele povo faria de suas tradições uma ponte para a liberdade.

 

No livro “O Mundo Negro: relações raciais e a constituição do movimento negro no Brasil” (2013), Amilcar Araújo Pereira discute sobre a política da identidade negra no país. Doutor em História pela Universidade Federal Fluminense, o autor, que também é professor da disciplina na Universidade Federal do Rio de Janeiro, afirma “que existiu movimento negro no Brasil desde que os primeiros seres humanos escravizados chegaram à costa brasileira”.

 

Capoeira, quilombos, fugas, paralisações, sabotagens a plantações, suicídios e as práticas espirituais feitas às escondidas (que deram origem ao marcante sincretismo religioso presente no Brasil) foram formas de resistência negra às condições de vida e aos tratos desumanos a que eram submetidos os escravos. Foi assim que alguns penteados utilizados por tribos africanas voltaram à cabeça dos negros com um significado diferente ao que fora utilizado na África: as tranças agora eram o código de mensagens que o homem branco não poderia entender.

Clique nas imagens acima para ampliá-las e ler as legendas com maior conforto - Fotos: Gabriela Isaias

Luta silenciosa

Rastrear as origens de cada trança que fez parte da cotidiano dos escravos negros no Brasil durante quase 400 anos é complicado. A maior parte dos povos africanos transmite sua cultura pela oralidade, não pela escrita, e os documentos redigidos sobre os negros na época da escravidão foram destruídos em sua grande maioria. Foi através da resistência, muitas vezes silenciosa e transmitida de geração em geração, que legados seculares foram preservados – o que acabou criando uma rede de comunicação entre os escravos da qual tem-se apenas indícios.

Gabriela Azevedo, 31, trancista desde os 15 anos e criadora do projeto Trança Terapia, afirma que a dificuldade em descobrir as raízes das histórias ancestrais acaba transformando fatos históricos em “contos”. Ela conta que os penteados eram frequentemente usados para transmitir mensagens entre os negros escravizados: “Eles usavam as tranças como códigos”, explica. 

Como as mulheres escravas eram percebidas como uma ameaça menor do que os homens, elas não eram constantemente fiscalizadas e podiam andar de forma um pouco mais independente. Desse modo, enquanto caminhavam pelos arredores da cidade, acabavam mapeando trajetos de fuga que mais tarde seriam tecidos em forma de trancinhas rasteiras no couro cabeludo de seus colegas. “Quem conseguisse voltar para resgatar outras pessoas tinha a rota de fuga para o quilombo desenhada na cabeça”, diz a trancista.

As mulheres também costumavam manter os cabelos mais longos que os homens, por isso elas usavam as tranças para esconder até mesmo ouro e sementes que pudessem ajudar na sobrevivência depois que fugissem. Era o sinal de que, embora exploradas, torturadas, estupradas e muitas vezes tratadas como objetos sexuais pelos seus senhores, ainda havia, em suas coroas, seus orís, mensagens de esperança e liberdade. Era a mulher com o sangue da África aproveitando o conhecimento do passado para resistir em um presente assustador, com ideias de um futuro melhor. 
 

Quando veio a escravidão, as tranças passaram a significar resistência: os negros escravizados que foram tirados das suas terras viam na trança e na religião uma forma de afirmar ‘eu continuo sendo o que eu sou, a minha cultura se mantém viva’”

FABIO ALVES, EMPRESÁRIO

Jamile Bento conta que, quando usa roupas étnicas para trançar, atrai mais clientes - Foto: Gabriela Isaias

A trancista Jamile posa com sua sombrinha em dia de chuva no bairro de Rio das Pedras - Foto: Gabriela Isaias

A Áurea que não veio

O ano é 2018. A lei de abolição da escravidão completou 130 anos no último 13 de maio. “Sexualidade, nudez, feiura, preguiça e indolência” eram termos comuns à descrição das pessoas escuras na literatura científica dos séculos passados. Mas, mesmo nos dias atuais, esses termos continuam a ser utilizados como formas de desmoralização. Ainda há quem veja o negro como um ser primitivo, inferior, dotado de superioridade corporal apenas para determinados esportes. Ainda mais preocupante, no entanto, é a internalização de imagens racistas sobre si mesmo, o que consiste no problema da autodiscriminação.

 

A partir do momento que uma pessoa negra assimila ofensas opressoras acerca de si, passa a reconhecer toda a ideologia cruel fundamentada pelo preconceito de cor. Esse tipo de pensamento fortaleceu um sistema excludente que não elaborou medidas contra a desigualdade de oportunidades ao fim da Lei Áurea. Apenas 46 anos depois da assinatura que libertou os negros escravizados em 1888 que a Constituição se comprometeu a não mais fazer distinções por motivos que incluem a raça. De lá para cá, passaram-se algumas décadas e a cidadania negra ainda é relativa.

 

A construção da identidade do negro após a diáspora causada pela escravidão não ocorre apenas quando o indivíduo volta-se para si mesmo. É também no contato com o outro, no olhar externo, que cada um se reconhece. De acordo com Neusa Santos Sousa, psiquiatra e psicanalista, “ser negro no Brasil é tornar-se negro”. A escritora brasileira afirma que “nascer com a pele preta e/ou outros caracteres do tipo negroide e compartilhar de uma mesma história de desenraizamento, escravidão e discriminação racial, não organiza, por si só, uma identidade negra”. No livro “Tornar-se negro: ou as vicissitudes das identidades do negro brasileiro em ascensão social” (1983), Neusa argumenta que tomar poder sobre a própria identidade é como sair das grades da alienação a que tanto tempo foram condicionadas as populações afrodescendentes.


Mais importante que as origens comuns àqueles submetidos a séculos de trabalho escravo e discriminação é a troca de experiências vividas e compartilhadas pelas populações que compõem a diáspora negra. Vários fatores, como a falta de educação e consequente ignorância dos direitos civis, o reduzido acesso às oportunidades e as precárias condições econômicas e culturais dificultaram a articulação de um movimento negro coeso no início do século 20. Porém, foi através do acesso à própria história e da retomada de autoestima de milhares de afrodescendentes ao redor do mundo, que jovens negros passaram a reivindicar uma identidade cultural própria e deram início aos vários movimentos raciais que efervesceram a partir dos anos 1960.

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O racismo no Brasil é histórico, político, cultural e ideológico. O racismo faz parte da estrutura do pensamento brasileiro. O racismo é uma questão nacional e, sendo uma questão nacional, deve ser debatido por todos os setores da sociedade"

JANUÁRIO GARCIA, FOTÓGRAFO

Vista do conjunto habitacional Cruzada de São Sebastião, onde mora a trancista Roberta Souza - Foto: Gabriela Isaias

Hora do despertar

“Margaridinha ou Daisy Flower”: é assim que Margarida Souza, 68, prefere ser chamada. Nascida no ano 1950, Margaridinha aprendeu a trançar cabelos com Veluma Nunes, uma das primeiras modelos negras de sucesso no Brasil. “A Veluma me ensinou o movimento do trançar, eu sou grata à ela pela minha profissão de trancista”, afirma Margarida. Ela ressalta que o aperfeiçoamento na atividade veio alguns anos depois, com Idalice Bastos, mais conhecida como “Dai”. Segundo a trancista, foi com Dai que aprendeu a técnica “perfeita” para aliar suavidade no toque e precisão para trançar cabelos sem causar dor. “Aprendi que o cabelo é uma planta que a gente tem que regar com carinho, com amor: molhar, conversar, dar vida, equilíbrio”, diz Margarida. Ela conta que Dai e João Pedro Pereira foram alguns dos primeiros trancistas a montar um salão étnico em solo carioca e acabaram se tornando referências sobre o assunto na cidade.

 

Margarida fala que aprendeu a trançar durante os anos 1970, uma época efervescente para os jovens cariocas: “Aconteceu uma revolução no Rio de Janeiro dentro do movimento negro em relação à gente se conscientizar e saber ter o nosso próprio cabelo”. O período em questão corresponde às várias mobilizações negras em busca da liberdade que não veio em 1888. Ao mesmo tempo em que vários países da África negra lutavam por independência, movimentos como Pan-Africanismo, Negritude, Black is Beautiful, Panteras Negras e as várias manifestações em prol dos direitos civis nos Estados Unidos repercutiram no Brasil, promovendo um “despertar da consciência racial”. Era chegada a hora de conhecer a história por trás dos traços ancestrais que persistiam nos olhos, nos narizes, nas bocas, no tom de pele e em cada fio de cabelo.

 

Ao invés de vestir máscaras brancas e assimilar o desprezo com que seus corpos eram tratados, as populações negras tornavam o corpo motivo de orgulho, afirmando o valor de suas culturas e rejeitando um padrão que tanto sufocou suas personalidades. É assim que o professor e antropólogo brasileiro-congolês Kabengele Munanga explica os movimentos internacionais que influenciaram a vida dos negros no Brasil, mesmo em uma época política marcada pela censura e a vigilância da Ditadura Militar.

[Ser negro hoje] Tá na moda. Mas a gente precisa estar na moda. Nós somos negros, compomos a maioria da população desse país. E nós nunca estivemos na moda. Hoje nós estamos e isso é um fato. Se isso é bom ou ruim, depende do seu ponto de vista”

ANDREIA CARDOSO, TRANCISTA

PRINCIPAIS ACONTECIMENTOS NA HISTÓRIA DO NEGRO NO BRASIL

No livro “Negritude – Usos e sentidos” (1986), Kabengele afirma que a tomada de consciência foi uma forma de reação aos estereótipos e preconceitos enraizados na sociedade brasileira. Ao invés de lamentar a própria cor, os descendentes de uma África distante encontravam em si mesmos fontes de glória: “Tratava-se de ter a liberdade de expressar-se como se é, e sempre se foi; de defender o direito ao emprego, ao amor à igualdade, ao respeito; de assumir a cultura, o passado de sofrimento, a origem africana”, diz, no livro.

 

Foi, portanto, a partir da estética que as ideias do movimento negro do Brasil (constituído em sua maioria por jovens universitários) conseguiu alcançar camadas mais baixas da população, como, por exemplo, alguns dos subúrbios mais antigos do Rio de Janeiro. A própria imagem agora é um sinal de afirmação étnica e política, retomando a tradição africana de usar o corpo como forma de comunicação. Dentro dessa nova mentalidade, o cabelo crespo torna-se um dos aspectos centrais para a reconstrução das memórias africanas de milhares de negros em diáspora.

Eu fui vivendo e conhecendo o movimento negro, aprendendo a ser negra. Entendendo a discriminação, o racismo, o porquê de ser bonita, de ser feia, de ser rejeitada, de ser infeliz, de ser usada”

MARGARIDA SOUZA, TRANCISTA

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Rua do Instituto Black Bom, no Centro da cidade. O local é utilizado por jovens empreendedores negros que moram em áreas distantes - Foto: Gabriela Isaias

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Antes de começar a trabalhar, a trancista Verônica Moraes posa para foto, no Instituto Black Bom - Foto: Gabriela Isaias

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À esquerda, Verônica Moraes, trancista da equipe Gabriela Azevedo; à direita, Margarida Souza faz pose divertida no Instituto Black Bom - Fotos: Gabriela Isaias

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Margarida conta que passou a refletir sobre suas origens após conhecer o Movimento Negro, nos anos 70 - Foto: Gabriela Isaias

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Gabriela Azevedo é adepta do penteado "coquinho", que consiste em finas tranças enroladas como coques no topo da cabeça - Foto: Gabriela Isaias

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A trancista gosta tanto do visual que escolheu usá-lo em seu casamento - Foto: Gabriela Isaias

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Segundo Gabriela, esse estilo foi inspirado por uma tribo africana: "Bantos trabalham mais com coques, argila, miçangas e bambu" - Foto: Gabriela Isaias

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Cíntia Ébano posa com seus dreads coloridos, à esquerda; à direita, Zezé Mota durante conversa no Instituto Black Bom - Fotos: Gabriela Isaias

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Trancista da equipe Gabriela Azevedo, trabalha na finalização de pontas trançadas - Foto: Gabriela Isaias

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A baiana Jamile prefere trabalhar maquiada: "Eu sempre bolo uns figurinos bem afro que é pra eu estar bonita, representando a minha cor" - Foto: Gabriela Isaias

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Ela conta que quando está arrumada atrai mais olhares: "Naquela olhada que a pessoa dá eu já falo 'ô, nega, vem cá fazer uma trança'" - Foto: Gabriela Isaias

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Segundo Jamile, além dos dedos e das pernas, as costas são o local do corpo que mais doem após um longo dia de trabalho - Foto: Gabriela Isaias

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À direita, Jamile posa em rua alagada de Rio das Pedras; à esquerda, a trancista aguarda a chegada de uma cliente em sua casa - Fotos: Gabriela Isaias

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A assistente social Danieli Saucedo (Falashewa) conta que utilizou tranças africanas durante o processo de transição capilar - Foto: Gabriela Isaias

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Enquanto é trançada por Jessica Silva, Danieli explica que usar cabelo natural pode ser uma forma de empoderamento - Foto: Gabriela Isaias

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A trancista Quênia Lopes em sua casa, no bairro de Del Castilho - Foto: Gabriela Isaias

Se a memória falhar

Para a militância negra, a aparência do cabelo está intimamente ligada ao processo de consciência da pessoa. “O peso do cabelo é extremamente forte porque remete à identidade, a um autoconhecimento. O cabelo natural remete a quem você é, remete à sua raiz. É um processo de dentro pra fora, mas que quando vai pra fora o outro te reconhece”, diz Danieli Saucedo (Falashewa), 37, enquanto tem seus cabelos trançados no alto do morro da Nova Cintra, na comunidade Tavares Bastos, bairro do Catete.

 

Mestre em Educação Profissional em Saúde pela Fiocruz, Danieli acredita que a estética precisa ter um propósito e transmitir ideias. “A trança remete a uma mensagem, o black remete a uma mensagem, o dread remete a outra mensagem. São narrativas diferentes, com textos e símbolos diferentes, mas eu acredito que, de uma certa forma, todas elas remetam à questão ancestral”, afirma.

 

A ligação com a terra-mãe é um sentimento que une vários negros pelo mundo, tornando a identidade negra um espelho para várias pessoas. Danieli é uma delas: “Quando você usa um turbante, uma trança, muitas pessoas negras iguais a você se identificam com a sua origem”, diz ela. É desse modo que os negros do Brasil, o país com maior afrodescendência do mundo, tentam resgatar suas raízes e se reconhecer em uma história africana.

 

Através de roupas, acessórios e valores com inspiração na África, muitas pessoas querem evidenciar no corpo a sua ancestralidade negra. Mas por ter sido repelida por vários setores de uma sociedade racista, a história do continente e sua diversidade é uma grande desconhecida para muitos indivíduos. Para Kobena Mercer, historiador e escritor britânico, vários dos elementos hoje utilizados por negros ocidentais para remeter a uma estética africana sequer correspondem à realidade encontrada nas sociedades do continente afro. “Eles são, na verdade, uma estilização nos moldes do negro do Novo Mundo”, afirma o autor, em seu livro “Welcome to the Jungle: New Positions in Black Cultural Studies” (1994), ainda sem tradução para o português.

 

É desse modo que a memória torna-se um fato construído por vários afrodescendentes que vivem em metrópoles e centros urbanos e uma África mítica vai ganhando vida. É a dramaturgia da recordação, que recria e reinterpreta as memórias lendárias do continente africano, formando uma rede de apoio entre os negros dispersos pelo mundo. Histórias interrompidas no passado são trazidas à tona, contos antigos são ressignificados. É nesse novo contexto que as tranças africanas ancestrais são resgatadas e uma nova identidade, dessa vez construída por mãos negras, é desenhada. É chegada a hora de dar vida a uma presença reprimida há séculos.

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“Muitas coisas implicam em você se sentir ou não negro, se entender ou não como negro. E eu acho que a trança tem o poder de resgatar a sua negritude”

JACIARA CARVALHO, TRANCISTA

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Reportagem apresentada como trabalho de conclusão do curso de Jornalismo da Escola de Comunicação da UFRJ.

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